sexta-feira, 15 de novembro de 2013

124 anos de uma república falida e mentirosa




124 anos atrás a população do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, acordava sob um novo sistema de governo, a república. Na madrugada anterior uma quartelada derrubou o Império sem a participação popular. Aliás este é um ponto importante já que esta data ficou conhecido como “Proclamação da república” mesmo tendo sido proclamado dentro de um quartel, sem a população.

O orgulho pessoal de um Marechal, o interesse comercial dos grandes produtores de café que haviam tido sua principal força de trabalho liberta no ano anterior pela Princesa Isabel. 

A população que dormiu sob um governo Imperial, agora descobria que seu soberano havia sofrido um golpe e agora estávamos sob o barrete frígido da república. Uma república que nascia sem participação popular alguma, esta é, aliás, uma característica que nossa república manteve durante todo este tempo, até os dias atuais.

A população negra, que havia sido liberta no ano anterior, se via desamparada. Agora estavam sob o governo daqueles que buscaram impedir sua libertação. A “Redentora”, título dado à Princesa Isabel pela assinatura da Lei Áurea, não mais intercedia por eles, agora eles estavam sob um governo de grandes produtores de café, seus maiores inimigos.

O medo dos ex-escravos se explicava de forma simples, os escravocratas entraram em verdadeira guerra contra o governo imperial após o 13 de maio de 1888. Hoje sabemos os motivos de tal guerra. Recentemente uma carta de Princesa Isabel de 11 de agosto de 1889 demonstra as intenções do governo Imperial que descrevemos abaixo na íntegra, e após continuamos nosso texto:

11 de agosto de 1889 - Paço Isabel

Corte midi

Caro Senhor Visconde de Santa Victória

Fui informada por papai que me colocou a par da intenção e do envio dos fundos de seu Banco em forma de doação como indenização aos ex-escravos libertos em 13 de Maio do ano passado, e o sigilo que o Senhor pediu ao presidente do gabinete para não provocar maior reação violenta dos escravocratas. Deus nos proteja dos escravocratas e os militares saibam deste nosso negócio, pois seria o fim do atual governo e mesmo do Império e da Casa de Bragança no Brasil. Nosso amigo Nabuco, além dos Srs. Rebouças, Patrocínio e Dantas, poderem dar auxílio a partir do dia 20 de Novembro quando as Câmaras se reunirem para a posse da nova Legislatura. Com o apoio dos novos deputados e os amigos fiéis de papai no Senado será possível realizar as mudanças que sonho para o Brasil! Com os fundos doados pelo Senhor teremos oportunidade de colocar estes ex-escravos, agora livres, em terras suas próprias trabalhando na agricultura e na pecuária e delas tirando seus próprios proventos. Fiquei mais sentida ao saber por papai que esta doação significou mais de 2/3 da venda dos seus bens, o que demonstra o amor devotado do Senhor pelo Brasil. Deus proteja o Senhor e todo a sua família para sempre! Foi comovente a queda do Banco Mauá em 1878 e a forma honrada e proba, porém infeliz, que o Senhor e seu estimado sócio, o grande Visconde de Mauá aceitaram a derrocada, segundo papai tecida pelos ingleses de forma desonesta e corrupta. A queda do Sr. Mauá significou uma grande derrota para o nosso Brasil! Mas não fiquemos mais no passado, pois o futuro nos será promissor, se os republicanos e escravocratas nos permitirem sonhar mais um pouco. Pois as mudanças que tenho em mente como o senhor já sabe, vão além da liberação dos cativos. Quero agora me dedicar a libertar as mulheres dos grilhões do cativeiro domestico, e isto será possível através do Sufrágio Feminino! Si a mulher pode reinar também pode votar! Agradeço vossa ajuda de todo meu coração e que Deus o abençoe! Mando minhas saudações a Madame la Vicomtesse de Santa Vitória e toda a família. Muito de coração

ISABEL

Após ler este registro histórico de valor inegável, vemos os motivos dos grandes fazendeiros terem incitado os militares contra o governo Imperial. Se hoje os negros no Brasil amargam as margens sociais, isso se deve a nossa república que engavetou os planos Imperiais e por um ideal positivista negou aos negros o direito a cidadania.

Mas não foram só os negros que foram abandonados pela nossa república. Ao nascer de uma elite e sem participação popular alguma, toda a população pobre foi marginalizada, seja branca, negra ou parda.

Nossa república, que nasceu sem povo, permanece sem povo até hoje. O 15 de novembro, não é neste sentido um feriado a ser comemorado pelos brasileiros, mas uma data de lamento que precisa ser corrigida.

A data de um golpe que fez subir ao poder uma república elitista que negou a sua população toda e qualquer participação, e que se mantém alheia a toda e qualquer reivindicação que venha de sua população não pode ser um motivo de festa para um país.

Uma república que se acostumou a troca de governos através de golpes de estado, que viu em seus 124 anos de história até então, mais períodos autoritários que períodos de democracia.

O 15 de novembro realmente é uma data que faz parte de nossa história, mas nem toda data histórica é motivo de comemoração, e com certeza o 15 de novembro não trás boas lembranças ao brasileiro.

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