segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O desgoverno vai até a última gota


Não se fala em outra coisa nos últimos meses. A crise hídrica que se abateu sobre várias regiões do país, tomou conta das manchetes e dos jornais país afora, claro junto com os escândalos da Petrobras, mas o papo aqui é a falta d’água. A questão é que quem agora todas as campanhas de conscientização e medidas jogam no colo dos cidadãos a responsabilidade pela manutenção dos níveis dos reservatórios, mas isso é justo? Até onde o cidadão comum é responsável por esta tal crise?

Neste momento de dificuldades hídricas, que a falta de água ameaça comprometer o abastecimento e a produção de energia, não falta quem acuse o desperdício e o mau uso da água como os principais culpados por esta situação. Imploram consciência da população e prezam pelo uso responsável da água, dentre estes não faltam políticos querendo se fixar como amigo do planeta.

É claro que ter consciência e responsabilidade para o uso da água é importante e deve ser levado a risca por todos, considero um absurdo e até mesmo um abuso até mesmo em períodos de fartura de água que seu uso seja feito de forma irresponsável como lavar o quintal 2 vezes ao dia, lavar o telhado todo mês e outras formas estúpidas de usar a água. Mas será que somente estes péssimos usuários seriam capazes de secar o Cantareira? Se os relatórios das distribuidoras apontam que a população vem diminuindo o consumo da água para ajudar só resta uma questão, quem afinal é o vilão da história?

O discurso que temos visto nos últimos dias e meses é de que cada um diminua seu tempo de banho, feche a torneira enquanto se ensaboa ou enquanto escova os dentes, reaproveite a água da máquina de lavar, entre outras tantas idéias. São realmente ideias fantásticas e que devem ser seguidas por cada um de nós em respeito a toda a sociedade, mas me desculpem não creio que estas pequenas medidas salvem nossas represas e reservatórios. No máximo acredito que irá ajudar a diminuir o consumo doméstico e consequentemente a conta de água.

Estes apelos para economizar água para salvar os reservatórios me faz lembrar os conselhos de alguns magos da economia pessoal que aconselham que para ficar rico se deve cortar o cafezinho após o almoço ou deixar de comer a pipoca no fim de semana e usar este dinheiro para poupar. Sabemos que estas medidas irão ajudar a ter uma graninha em alguns meses, mas não vai deixar ninguém rico, e da mesma forma fechar a torneira enquanto escova os dentes não vai salvar o Cantareira que já está no volume morto.

Permitam-me dizer que o problema aqui é bem mais grave e passa principalmente pelas urnas e não pelas represas ou nuvens. O problema pela falta de água e de energia é conseguencia do descaso dos últimos governos com os consequentes alertas técnicos dos setores que alertavam para a necessidade de um aumento de capacidade de armazenamento de água nos reservatórios e a capacidade de distribuição e geração de energia.

Claro que a estiagem que passamos é gravíssima e de forma nenhuma quero que neste texto pareça que nego isso, mas o fato é que se os governos de Lula tivessem ouvido os seguidos relatórios pedindo um aumento na capacidade dos reservatórios e se Dilma tivesse ouvido os clamores do setor elétrico para não baixar as tarifas na marra provocando um aumento no consumo de energia quando já se começava a anunciar a estiagem e o nível de alguns reservatórios já preocupava.

Aliado aos descasos do governo federal estão os descasos dos governos estaduais que mantém boa parte do sistema de águas e esgoto do país sucateados. Um relatório publicado na revista “Em discussão” em dezembro de 2014 pela Secretaria de Comunicação do Senado e que pode ser acessado clicando aqui mostra que a imensa maioria da água que é desperdiçada no país se perde antes de chegar aos hidrômetros das casas. O estudo aponta que cerca de 40% da água tratada se perde ainda na rede, fruto de perdas por vazamentos e até mesmo furtos, os famosos gatos.

Logo se vê que antes que o consumidor possa fazer alguma coisa, cerca de 40% da água já se perdeu antes de chegar em sua torneira. Isso nos leva de volta ao início deste texto, após tomar conhecimentos de dados como este devemos reconsiderar onde estão verdadeiramente os culpados por esta crise de abastecimento de água no país.

Aqui também deixo um pequeno puxão de orelha a todos nós brasileiros que em geral somos muito complacentes com situações que deveríamos considerar inaceitáveis. Em geral temos a mania de não nos doer quando vemos um vazamento de água na rede ou não reclamar quando não somos atingidos diretamente. O lançamento do relatório que mostra uma perda de cerca de 40% de água ainda na rede deveria provocar uma comoção aguda em todo o país, ainda mais neste momento de crise, mas foi apenas mais uma notícia cotidiana sem maiores consequências.

Estamos sendo muito complacentes com erros gravíssimos deste último governo que insiste em mentir dizendo que não há riscos de falta de água ou energia elétrica quando deveria abrir o jogo para toda a nação, assumir os erros cometidos e iniciar medidas concretas para que ao invés de termos racionamentos tenhamos uma interrupção no abastecimento de água e energia. Sinceramente não sei mais o que estamos esperando para cobrar do governo a verdade, uma explicação plausível e medidas imediatas. Ou se busca ações agora ou esperamos as torneiras secarem e aí não sei se irá adiantar muito reclamar, o pior já estará feito.

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